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Cuidado com gestantes pode ajudar a prevenir epilepsia na infância

Precárias condições de parto da maioria das mães brasileiras causam paralisias cerebrais que põem em risco milhares de crianças.


A neuropediatra Regina Célia Beltrão Duarte atende 80 pacientes em média por semana. Lidando com dezenas de casos no consultório particular e nos Hospitais Ophir Loyola e da Santa Casa de Misericórdia do Pará, ela se preocupa com todos os aspectos da doença, desde o estigma social que segrega o paciente, que ainda persiste, até as precárias condições de parto da maioria das mães brasileiras, causadoras paralisias cerebrais que põem em risco milhares de crianças.

“Temos uma incidência de 18 crianças para cada mil habitantes com paralisia cerebral, enquanto na Inglaterra, nos Estados Unidos o índice é de uma a duas para cada mil”, revela a médica, chamando a atenção para uma das causas da epilepsia.

A neuropediatra alerta que existem campanhas de humanização do parto no Brasil, mas não se dá condições para a mulher parir. “As crianças chegam em condições mínimas de sobrevivência, respirando muito pouco. E 60% dos casos de paralisia cerebral estão associados às síndromes epiléticas. Sabe onde tem mais paralisia cerebral? Nas regiões Norte e Nordeste. Temos uma imensidão de municípios, poucos assistidos”.

Em busca de alternativas para a superação das dificuldades que atingem os pacientes epiléticos, sobretudo crianças, a médica se juntou ao Grupo Epilepsia Norte, que reúne discentes e docentes da Universidade Federal do Pará (UPFA) num esforço multidisciplinar de estudo da doença, e é voluntária da ONG Iluminando a Vida, que atua no acolhimento e tratamento de pacientes portadores de síndromes epiléticas.

A médica é ainda membro titular da Academia Brasileira de Neurologia (Abneuro) e integra a Sociedade Brasileira de Neurologia Infantil (SBNPed), a Sociedade Brasileira de Genética Médica (SBGM), a Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP) e a Liga Brasileira de Epilepsia (LBE) e preside o Capítulo Pará da Associação Brasileira de Neurologia e Psiquiatria Infantil (Abenepi Pará). Professora da UPFA, Regina é uma ativista apaixonada da causa da epilepsia infantil.

A experiência com o atendimento de centenas de crianças credencia a médica a enxergar com clareza os problemas que atingem o paciente epilético desde o nascimento. “Sou presidente do Capítulo Pará da Abenepi. Essa instituição existe há 50 anos. Cheguei lá (na entidade) e havia muita gente preocupada com a humanização, com a mãe, com a mortalidade da mãe e eu estava preocupada realmente com a criança. Porque se não houver um pré-natal bem assistido e um perinatal bem assistido, você realmente vai ter um índice de paralisia cerebral em crianças bem maior. E essa probabilidade é uma estimativa, porque como é uma doença que não exige registro obrigatório, pode ser um índice muito maior”, diz Regina.


INCIDÊNCIA


A médica fala sobre a epilepsia na infância com o compromisso e o entusiasmo de quem sabe que é necessário agir logo para melhorar o atendimento dos pacientes e contribuir para que cresça a produção científica sobre o assunto. E há motivos de sobra para isso.

Em uma rápida pesquisa na Internet é possível encontrar índices diversos sobre a incidência de epilepsia na infância. Todos, porém são preocupantes. Calcula-se que de 75% a 90% dos pacientes epilépticos apresentem a doença antes dos 18 anos. A variação da taxa é compreensível, já que se trata de um mal de grande subnotificação. Um fato, porém, é incontestável: os percentuais revelam a importância de um diagnóstico precoce para se estabelecer um tratamento adequado.

A neuropediatra explica que a epilepsia é uma doença do cérebro com predisposição permanente para gerar crises epiléticas. E, pela nova definição, o mal “causa transtornos ou pode gerar transtornos cognitivos, comportamentais, sociais, psiquiátricos”. “A epilepsia é uma doença que tem suas comorbidades. O paciente pode ter uma dificuldade de aprendizado, pode ter uma deficiência intelectual associada, pode ter um transtorno de aprendizagem, pode ser um autista, pode ser uma criança com paralisia... e pode não ter nada disso também”, diz a médica.


DIAGNÓSTICO


Para se constatar a epilepsia, hoje, é necessário que ocorram duas crises não provocadas por um tempo superior a 24 horas. “Ou seja, você tem que ter mais de uma crise num prazo de 24 horas para caracterizar a epilepsia”, ensina. A complexidade da síndrome se mostra desde cedo e exige o diagnóstico, o acompanhamento e a intervenção de especialistas.

A médica explica que há muitos tipos de epilepsia, alguns que ocorrem mais em determinada idade. “Por exemplo: tem a epilepsia tipo ausência infantil, que ocorre entre 8 e 13 anos, mas você pode ter outro tipo de epilepsia que pode aparecer a partir dos 3 anos, como a de Lenox-Gastaut, que é um tipo de epilepsia muito frequente em que a criança, digamos assim, desliga. O pai é chamado pela escola e dizem: - A sua filha está muito desatenta, está perdendo o foco rapidinho, é como se ela desligasse, é uma perda da percepção muito rápida”, conta a médica. Nessas crises a criança “desliga” de dez a 30 segundos e “volta” como se nada tivesse acontecido.

Os sintomas e os sinais da doença variam muito, diz Regina. “A criança pode apresentar desde uma dor de cabeça com sensação de formigamento, olho piscando, boca entortando, transtorno psiquiátrico, dificuldade na atenção, até aquela convulsão mais clássica, que é aquela crônica, aquela que todo mundo sabe porque é aquela que chama mais atenção”.

A médica esclarece que a convulsão epilética não necessariamente ocorre com todas as crianças. “Tem crianças que sofrem apenas com crises focais. Um exemplo: ela pode ter só no olho, só na boca, não evoluindo para essa parte generalizada”.


COMPLEXIDADE


O exame de eletroencefalograma (EEG) é importante para se determinar o foco epilético na criança e demonstrar um padrão da síndrome, mas, alerta a médica, um eletroencefalograma com resultado normal não exclui a epilepsia. O diagnóstico da síndrome é complexo.

“O que é importante sempre, como chamo atenção nas aulas para os meus alunos, é entender que a epilepsia é constituída por crises epiléticas, mas as crises epiléticas nem sempre representam epilepsia”, diz Regina.

“Digamos que uma criança, um bebezinho de 8 meses que vomita, tem diarreia, perde muitos eletrólitos, ele pode ter uma convulsão. Essa crise epilética que ele teve não significa que ela é epilética. Mas ela teve por um distúrbio metabólico, por um problema agudo”, afirma a médica.

Um trauma craniano pode desencadear uma crise epilética, afirma a médica. Mas o paciente não necessariamente vai recorrer daquela crise. “Pode ser um episódio isolado em consequência daquele evento traumático”, diz Regina.

A médica dá outro exemplo. Uma pessoa pode ter uma única crise epilética prolongada, ir parar em uma Unidade de Terapia Intensiva (UTI) e ficar intubada. É preciso avaliar o paciente. Se um eletroencefalograma detectar algum um foco irritativo, será preciso conversar com a família e explicar que há 30% de possibilidade de o paciente ter uma nova crise. O próximo passo é discutir com a família sobre usar ou não medicação. “Agora, quando o paciente tem uma segunda crise, o risco de recorrência é de 70%”, diz Regina Célia.


CAUSAS


Inúmeras são as causas da epilepsia, indo de processos inflamatórios, imunológicos, estruturais e genéticos a até razões desconhecidas. Uma criança que passa por um problema no parto, que sofre uma anóxia, por exemplo, pode vir a desenvolver epilepsia.

A neuropediatra revela a complexidade da síndrome: “Aquela criança que fica intubada, passa meses internada, é uma criança que tem um risco muito grande de ter uma epilepsia. Uma epilepsia grave, inclusive, como uma síndrome de West, como uma síndrome de Lennox-Gastaud, mas aí a gente vai também pensar no outro lado... será que toda criança com síndrome de West precisa ser anoxiada, precisa passar por um problema desses? Não. Você pode ter crianças com West que você não tem nenhum fator do porquê daquela criança ter desencadeado aquela crise. É considerada uma síndrome epilética muito grave”.

O que são as síndromes de Lennox-Gastaut e de West?

A síndrome de Lennox-Gastaut (SLG) ou encefalopatia epilética da infância é uma síndrome epilética pediátrica grave que constitui 1 a 4% das epilepsias da infância. É comumente caracterizada por uma tríade de sintomas: epilepsia de vários padrões, retardo mental (RM) e complexos ponta-onda lentos no eletroencefalograma (EEG).

Já a síndrome de West é uma forma de epilepsia que se inicia na infância e é caracterizada por espasmos infantis, hipsarritmia e retardo mental e que tem como causas mais comuns a esclerose tuberosa e a anóxia neonatal.


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